terça-feira, 3 de julho de 2018

John Coltrane – Both Directions At Once - Uma aquarela em Preto & Branco


Exímio músico com uma excelente técnica de improviso, John Coltrane (1926 -1967) fez parte de uma geração de artistas que contribuíram para uma mudança significativa no meio musical, muito desse mérito, por levarem o que criaram para um patamar até então não explorado. As suas composições, não subverteram a música em si, mas apresentaram trabalhos com uma qualidade inédita e surpreendente, que até hoje gera um grande fascínio em seus ouvintes.

Em 1965 quando lançou o LP A Love Supreme, Coltrane foi transformado em um gigante do jazz, o saxofonista já tinha o seu nome prestigiado entre os músicos e público. Devido ao seu talento, passou pelo cultuado Miles Davis Quintet (1955 – 1969) do qual ficou por dois anos, chegando a participar do essencial Kind of Blue (1959). Em carreira solo, assinou contrato com importantes gravadoras como: Prestige, Atlantic, Blue Note e Impulse!. Essa última, da qual ficou até o encerramento de suas atividades. E gravações inéditas desse período, merecem todo destaque.

Both Directions At Once: The Lost Album (Impulse! CD/Vinil e streaming) não é um trabalho conceitual ou muito menos planejado, mas o disco é um verdadeiro achado. As fitas originais foram perdidas, e o que sobrou, são cópias em mono que foram registradas no dia 6 de março de 1963, no estúdio Rudy Van Gelder (Nova Jersey – EUA), local muito usado pelas gravadoras Blue Note, Prestige entre outras.

No disco o que se ouve, é um belo registro de um conjunto de músicos em seu ápice sonoro e virtuosidade, no qual o improviso e a forma livre são o fio condutor de todas as faixas. Porém o registro é um trabalho cru, quase sem tratamento de pós-gravação, se assemelhando a um rascunho para um álbum mais acentuado, mas apesar do time de músicos serem de primeira, o resultado final é bruto. Mesmo não tendo o acabamento necessário e soando rústico, o que se escuta é praticamente sublime.

Coltrane e sua banda formada pelos músicos McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria), desfiram uma grandiosidade técnica fazendo do álbum verdadeiro deleite. Oferecendo ao ouvinte um exemplo de integridade harmoniosa e uma ampla habilidade sonora, sem cair em redundâncias. Acompanhamos esse grupo exibindo sem filtros todo o talento e competência do que produziam no palco.

Há a interpretação da música “Nature boy” gravada por Nat King Cole; uma versão de “Vilia” do disco Live at Birdland (1964); takes alternativos de “Impressions” (1961) e “One Down, One Up” do álbum Live at the Half Note (1965), faixas já conhecidas de gravações ao vivo, que aqui se encontram mais robusta. Entre as 14 músicas, temos a longa “Slow Blues” que possui a maior variedade de peripécias e precisão. A conexão entre os músicos é caprichada, quase espiritual.

The Lost Album é John Coltrane em estado natural. Fica difícil fazer um destaque adequado, já que se trata de um dia de gravação com faixas avulsas. Mesmo sem ter viés próprio, é divertido escutar esse arquivo até então desconhecido. Principalmente na época em que esses artistas se encontravam e sua melhor fase, tanto musical quanto técnica. E não deixando nenhuma dúvida, que John Coltrane foi um músico de talento insubstituível.

 Em tempo, excelente disco.

RadioCult FM





quarta-feira, 20 de junho de 2018

Jurassic World: Reino Ameaçado

Quando chegou aos cinemas em 1993, o filme Parque dos Dinossauros , causou uma grande agitação no mercado cinematográfico, muito pelo fato do longa trazer melhorias tanto na parte técnica em relação aos efeitos visuais, quanto em seu marketing direcionado ao público jovem.

O mundo ficcional criado por Michael Crichton (1942 – 2008)  ganhou continuações em 1997 (O Mundo Perdido) e o terceiro em 2001 (Jurassic Park III), e depois de quatorze anos, fizeram o rentável reboot Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015), que agora ganha mais uma parte, nesse mundo um tanto agressivo.

Em Jurassic World: Reino Ameaçado ( Jurassic World: Fallen Kingdom – 2018 ), A ilha Nublar em que os dinos vivem, está ameaçada pelo erupção eminente do vulcão nativo da região, que irá afetar todos os seres que residem no arquipélago. Um grupo formado por empresários querem algumas espécies vivas para serem usadas como armas.

E para essa missão (que está disfarçada de resgate), contratam a ex-diretora do parque Claire (Bryce Dallas) que convida o adestrador Owen (Chris Pratt) para tal tarefa, mas no desenrolar da trama, descobrimos que além dessa conspiração ( o resgate e a preocupação ambiental não passa de uma farsa), há um outro segredo que mudará todo o sentido dessa história.

O diretor espanhol J.A. Bayona , procura repetir o mesmo clima de aventura e sobrevivência do filme de 1993, refazendo as mesmas situações do filme clássico, no novo. Em parte, ele acerta, mas perde a mão em momentos importantes da trama. Como a franquia já foi explorada ao extremo desde o seu começo e revitaliza no filme 2015, o atual ficou meio fora do encaixe na história original, focando mais no resgaste e na subtrama, e deixando de lado a aventura.

Mesmo não tendo um propósito plausível, o longa diverte e deixa um final aberto que pode ser aproveitado com mais criatividade, já que a fábula ainda gera interesse e  pode ser mais explorada.

A parte em relação aos dinossauros digitais, vemos falhas em sua execução, pelo fato deles mudarem de tamanho a cada mudança de cena, que no filme de 1993 e dos posteriores, sempre tiveram um tratamento mais cuidadoso.

A personagem Claire Dearing (Bryce Dallas), dessa vez corre utilizando botas, que no filme anterior (2015), sofreu reclamações por estar sempre usando salto-alto em todas as cenas de ação.

E aqui fica o destaque para atriz-mirim Isabella Sermon que dá um show de talento.



segunda-feira, 18 de junho de 2018

Gui Boratto (Pentagram) - Arquitetura Moderna.


Original da cena prolífera de música eletrônica brasileira, que ajudou a botar o país no mapa dos grandes produtores e DJs que trabalham com emusic ao redor do mundo, o paulistano Gui Boratto chamou a atenção logo em seu primeiro disco Chromophobia (2007) do qual apresentava um álbum recheado com um Minimal Tech mais alinhado, que contribuiu para que seu nome fosse catapultado para grandes eventos, além de mostrar que no Brasil se produz música eletrônica de qualidade. Com esse empenho e dedicação, o produtor acabou recebendo elogios de vários críticos em diferentes publicações sobre música eletrônica, incluindo um considerável público fiel. Chromophobia passou a fazer parte de listas de melhores do ano.

De 2007 em diante, Boratto ficou com uma agenda apertada de tantos festivais do qual se apresentava. O músico nesse meio tempo, lançou outras gravações como “Take My Breath Awayuma continuação direta de Chromophobia , “III” (2011) e inúmeros remixes e parcerias com diferentes artistas. E após o seu disco “Abaporu” de 2014, o produtor volta com o seu trabalho mais maduro.

Em “Pentagram” (2018- Kompakt) ouvimos o músico em sua melhor fase tanto musical quanto conceitual, apesar de que o álbum não aborda de fato as formulações geométricas e as formas rigorosas da arquitetura (antes de ser músico, Boratto era arquiteto);  o disco tem uma sisudez e estética original. É recheado com uma boa coleção de faixas que irão agradar desde o mais purista em relação ao Minimal Tech, até o ouvinte mais moderno e livre de preconceito.

A partir de sua abertura com “The Walker” que tem uma pegada bem synthwave, até ao seu fechamento com a quase hipnótica e sintética “618”, o músico apresenta uma grande variedade de estilos e ritmos, mas sem fugir do clima de pista de dança. O disco não tem a agitação comum do qual se destina, Pentagram fica preso ao andamento desacelerado característico do Minimal, mas sem sua repetição exaustiva.

Faixas como “Scene 2”, “The Phoenix” são o contra ponto em relação as músicas mais agitadas,“Overload” (que tem sample de “Scene 1” do Chromophobia), “Alcazar”, “Hallucination  são o ápice, as composições podem fazer a festa nas mãos dos DJs mais exigentes. Já que Boratto compreende como funciona uma pista de dança sisuda, sem precisar apelar para uma abordagem mais estridente ou fácil. Não há apelo.

O que Boratto fez, foi rechear toda a sua base simples, com uma variedade de sintetizadores e instrumentos, deixando tudo soar orgânico e natural. De primeira, nem se assemelha ao disco genérico de música eletrônica dançante, aliás, “Pentagram” foge por completo desse estereótipo designado ao estilo tão diversificado que é a emusic. O que ouvimos, é um trabalho quase artesanal dentro da Dance Music.

O hiato de cinco anos entre “Abaporu” e “Pentagram” fez bem ao músico, que nesse intervalo pôde pensar e refletir na forma de como iria desenvolver todos os sons que se escuta em seu novo álbum. E dando a entender que o próprio procura trilhar por novos caminhos sensatos dentro e fora da Dance Music. “Pentagram” é o primeiro passo para esse inevitável amadurecimento.

Em tempo, bom disco.

Radio CultFM